Sobre a Psicanálise

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Importante esclarecer que, para a Psicanálise, reação emocional não é sintoma de uma doença. Todos passam por situações difíceis que podem gerar ansiedade, assim como enfrentam perdas que levam a sentimentos de tristeza.

Há períodos em que essas emoções são mais intensas como nas chamadas crises evolutivas, nas quais ocorrem grandes mudanças: o desmame na primeira infância; o início da atividade escolar que representa o contato com o mundo fora da família; a longa passagem da infância para a idade adulta que é a adolescência; a formação de uma nova família através do casamento e a expectativa de filhos; o envelhecimento.

Além desses, há os acontecimentos imprevistos que causam ruptura no equilíbrio psicológico: doenças, acidentes, violência urbana, guerras, migração forçada, desemprego, perdas inesperadas. São situações traumáticas que também geram ansiedade e tristeza. Como se vê, é inevitável que esses sentimentos venham a ocorrer em períodos diversos de qualquer história pessoal.

Então, qual é a linha divisória a partir da qual essas reações serão vistas como sintomas com indicação de procurar ajuda da Psicanálise?

Geralmente, há uma junção de fatores que acarretam os problemas clínicos. Primeiramente, as características que cada indivíduo traz dentro de si. Depois, a maneira como o ambiente nos primeiros anos lida com as marcas pessoais, como as aceita, rejeita e coloca limites. Espera-se que as dificuldades de cada um sejam atenuadas ou transformadas com os cuidados do ambiente, e que este mesmo ambiente contribua pouco para reforçá-las ou para ocasionar novas dificuldades.

Se a relação com o ambiente foi bem-sucedida, o sujeito terá condições psíquicas mais estruturadas para enfrentar as angústias de crescimento e as situações traumáticas imprevisíveis. Em caso contrário, o sujeito ficará mais vulnerável. Sobre este pano de fundo é que as reações tendem a gerar sintomas porque se excedem em quantidade e mudam de qualidade. Tornam-se repetitivas, se prolongam no tempo e não respondem às boas experiências com o mundo externo. Causam intenso sofrimento psíquico e limitam a capacidade do sujeito de dispor dos próprios potenciais.

Há inúmeras formas de manifestações clínicas. As mais frequentes são: 
- dificuldades de relacionamento interpessoal na vida afetiva, familiar e no ambiente profissional. 
- dificuldades na área da sexualidade. 
- sensação de vazio e tédio interior. 
- sensação de inadequação na presença de outros. 
- incapacidade de expressar emoções mais íntimas. 
- pouca confiança em si mesmo e nos outros. 
- sentimentos contínuos de mágoa e ressentimento. 
- atitudes rígidas e pouco maleáveis. 
- sintomas somáticos frequentes sem causa orgânica. 
- preocupação obsessiva com o corpo e com o envelhecimento. 
- intolerância exagerada aos próprios erros e dos outros. 
- medos aparentemente não justificados. 
- necessidade de mostrar sucesso e bem-estar a qualquer preço como forma de negar as fragilidades.

Não é incomum a presença de mais de uma manifestação no mesmo indivíduo. A avaliação é feita caso a caso, principalmente no que cada sintoma representa na história pessoal. A partir da relação emocional entre as particularidades da história do sujeito e as situações atuais é que se processa a terapia psicanalítica.

Há casos mais graves tais como: ansiedades persistentes que levam a vivências de pânico; depressões severas com paralisação das atividades e risco de suicídio; delírios de perseguição e de grandeza; impulsividade agressiva; comportamentos compulsivos (jogo, sexo, comida); uso compulsivo de substâncias químicas (álcool, drogas ilícitas e remédios controlados); transtornos alimentares (bulimia, anorexia). Estes casos, geralmente, necessitam de um atendimento múltiplo com o uso de medicação psiquiátrica, terapia familiar e até internação hospitalar.

Além da melhora nos sintomas e diminuição do sofrimento psíquico, a Psicanálise ajuda os indivíduos a reconhecer as situações emocionais que desencadeiam as crises e a preveni-las. Mas a maior conquista que a Psicanálise pode oferecer aos que a procuram é a condição de melhorar a qualidade dos relacionamentos e a qualidade de vida em geral, através de um maior aproveitamento dos potenciais amorosos e criativos de cada sujeito.