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Intervalo Analítico


Kafka e a boneca viajante

Autor: Jordi Sierra i Fabra

Editora: Martins Fontes


(continuação)

...Kafka mostrou-se generoso e disponível para entrar em sintonia com suas necessidades e teve a criativa ideia de denominar-se o carteiro das bonecas. “Sua boneca não se perdeu, ela foi viajar” (p. 21). Aqueles segundos eram decisivos: a garotinha poderia tomá-lo por louco. Mas também poderia ancorar-se à esperança e “a esperança era mais necessária que a realidade” (p. 24). Durante três semanas se encontrou com a garotinha no mesmo parque, sempre na mesma hora, para lhe entregar a ansiada correspondência. As cartas da boneca Brigitte narravam suas descobertas pelos lugares pelos quais passava – Londres, Paris, Veneza, Tanzânia – e declarava sua gratidão por Elsi – como uma filha que, com a reserva de amor que os pais lhe proporcionaram, sente-se capaz para enfrentar os reveses da vida. Kafka vai construindo com a menina uma narrativa, preenchendo e satisfazendo a criança com possibilidades – o jogo simbólico se instaura. O carteiro das bonecas assume o lugar do oráculo intermediário entre o sonho e a realidade, alimentando a zona de ilusão e sustentando o sofrimento e a frustração advindos da perda do objeto amado. “Nosso primeiro encontro com a dor na vida geralmente é difícil e doloroso. Nosso primeiro choque frontal com a realidade é um rude despertar. Elsi nunca esqueceria a perda da sua boneca, mas pelo menos agora ela estava começando a experimentar aquele sentimento duradouro de orgulho...” (p. 68). Perdas ao longo da vida são inevitáveis: a perda de uma boneca, a perda de um encontro que não pôde ocorrer, a perda de uma amizade, a perda de um grande amor ou mesmo a perda pela morte de alguém. O luto vem ao nosso encontro e uma dor, muitas vezes inominável, toma conta do nosso aparelho psíquico. Elsi chorava angustiada pela perda de sua boneca e Kafka, com a sensibilidade intrínseca aos poetas, segue significando para a criança a dor sentida. O uso da imaginação como um caminho por meio do qual ela pode chegar à elaboração do luto, dando um sentido ao que era inquietante. Todo o trajeto, todas as cartas tiveram a função de redirecionamento da energia amorosa – não se caminha apenas uma rota, a vida nos oferece muitas possibilidades. Da fantasia para a realidade, Elsi resgatou sua capacidade criativa e despediu-se para brincar com outras crianças no parque. O tempo para elaboração do luto é sempre um mistério, mas se temos um carteiro das bonecas esse processo pode ser transformador. Como nos ensinou Winnicott em "O brincar e a realidade", quando “Sou visto, logo, existo”. Elsi se viu refletida e reconhecida nos olhos do carteiro e, assim, pôde criar com ele um primeiro lugar para elaboração da dor. A Literatura sempre proporciona a possibilidade de elaborar algo que o senso comum e o dia a dia não conseguem dar conta. Todos nós, em certos momentos, precisamos de um “carteiro de bonecas”. A sensibilidade da simplicidade, o amor oferecido genuinamente. Esta narrativa deliciosa foi um presente para iniciar um novo ano, ainda com a sombra do objeto PANDEMIA pairando sobre nós. Um presente compartilhado por uma amiga e que pude usufruir lendo com aquele que sempre foi meu carteiro das bonecas: meu pai. Elsi, Brigitte e Kakfa e a brilhante e delicada criação do premiado Jordi Sierra i Fabra aguardam em algum banco de alguma praça.


// Marina Miranda

marinamag@yahoo.com


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