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Intervalo Analítico


A Política da Psicanálise


(continuação)

Embora a política traga a ideia da convivência pacífica entre os diferentes, sempre foi vítima de preconceitos que derivam de seu potencial para afastar-se de seus princípios e abrir espaço para os "políticos profissionais", representantes de grupos econômicos, que, com suas ideologias dominadoras, se organizam de forma a defender seus interesses e manter seus privilégios. Estão de costas para a sociedade e são capazes de assistir a toda a sorte de atrocidades cometidas contra ela, sem se manifestar. As últimas eleições para os presidentes da Câmara e do Senado ilustram muito bem esse comportamento. Naquela oportunidade assistimos a uma espécie de “banca de negócios”, na qual parte da esquerda, a direita e o presidente se uniram em apoio ao mesmo candidato, com o intuito de salvar a própria pele.

A tentativa da política de organizar o caos das diferenças começa quando a violência é suspensa e os conflitos passam a ser tratados pela palavra, conflitos esses que expressam os mais variados desejos. Esse é o campo comum entre a Psicanálise e a política. Freud, ao dar a palavra às histéricas, por meio da associação livre, se depara com o caos absoluto das pulsões, com o fato de que o "eu não é o senhor em sua casa". A política da Psicanálise, desde Freud, é dar voz a este outro que mora em nós, é administrar uma espécie de "guerra civil psíquica", que surge do nosso desamparo estrutural e da incômoda dependência do outro, sem o qual não sobrevivemos. Somos forçados a desenvolver uma política particular para dar conta dessa fragilidade e nos servimos para tal das mais variadas fantasias.

A Psicanálise, com seu instrumental, vai facilitar o aparecimento do sujeito do inconsciente com os significantes que o representam e aprisionam, ou seja, a política particular desenvolvida por cada um frente ao desamparo e à incompletude que a Psicanálise nomeia por castração.

Ao final de uma análise, é esperado que o sujeito faça a travessia da fantasia, que enfrente seus fantasmas se tornando menos "ideológico" no sentido de se agarrar a verdades absolutas, e mais político, no sentido de lidar com as diferenças, com as pequenas diferenças, com os seus próprios limites e com os dos outros.


// Luciana Carvalho

lucianac@globo.com

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