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Vem aí a TRIEB Diálogos

Nosso tempo trouxe ventos de intolerância e preconceito que imaginávamos - ou tão somente desejávamos - distantes. Xenofobia, crise migratória, nacionalismos extremistas, terrorismo fundamentalista, fanatismo, retórica de Guerra Fria, maus-tratos cibernéticos e outros ocupam diariamente os noticiários e as análises críticas. Aqui em nosso país, a crise política-institucional tem exacerbado ódios partidários com discursos inflamados e ameaça de batalhas campais. No meio disso tudo, temos uma boa notícia. Em breve sairá do prelo o novo número da TRIEB com um tema candente e necessário para a atualidade: Diálogos. Não que os editores tenham a pretensão de influir nos complexos problemas acima. O que se espera é que este número da TRIEB seja mais um espaço de reflexão através da leitura de artigos que mostram que apesar de momentos de intolerância estarem presentes nas diversas áreas do saber e da Cultura, a sua resolução através do diálogo é capaz de manter as diferenças em nível de tolerância mútua que levam a mais diálogos. Como se verá em alguns artigos, a psicanálise também não escapou deste circuito de não aceitação de concepções diversas sobre o psiquismo até chegarmos hoje a uma visão mais pluralista (ou tão somente a desejamos?). Impossibilidades e incapacidades de diálogos se transformaram em ... Diálogos. Enquanto a TRIEB Diálogos não chega vamos falar um pouco de dois pensadores modernos afeitos à arte de dialogar.



Diálogos com Umberto Eco

Recentemente falecido, Umberto Eco deixou uma brilhante trajetória intelectual como professor universitário, linguista, semiólogo e medievalista. Foi um contumaz cronista em mídia impressa e eletrônica sempre dialogando com seus leitores sobre os assuntos mais diversos envolvendo os fenômenos culturais e políticos. Sem esquecer a sua atividade como romancista que tornou-o fenômeno mundial. Também nos legou dois admiráveis livros que mostram a força e a necessidade da nobre arte de dialogar. No primeiro destes, Em que creem os que não creem (Editora Record ), Eco estabelece um diálogo epistolar com o cardeal Carlo Maria Martini sobre a dificuldade dele Eco, enquanto sujeito não apegado à crença de uma divindade criadora do universo, em compreender as proibições da Igreja em relação a importantes questões da atualidade. Assim como ambos mostram que é possível conversar sobre diferenças, também se veem em impasses quando chegam a sistemas de crenças que pouco se abalam com a argumentação do outro. Daí, é possível ver como é fácil o diálogo se perder em posições rígidas e gerar conflitos sangrentos. Dialogar exige alguma disciplina e sensibilidade para com o outro. Neste sentido, os dois interlocutores mostram-se capazes de levar adiante os temas discutidos e deixam a nós, leitores co-participantes do diálogo, a possibilidade de refletir sobre posturas adversas (o que certamente seria mais difícil fossem os diálogos inflamados). Lidar com questões da atualidade a partir da presença ou da falta de uma fé religiosa leva inevitavelmente a um choque de crenças. Como no papel do homem e da mulher ("Os homens e as mulheres segundo a Igreja" é o título da carta de Eco, "A Igreja não satisfaz expectativas, celebra mistérios", o título da resposta de Martini); o aborto ("Quando tem início a vida humana?" - Eco, "A vida humana participa da vida de Deus" - Martini); o livre-arbítrio ("Onde o leigo encontra a luz do bem?", pergunta Martini, "Quando o outro entra em cena nasce a ética" - responde Eco). Talvez esta seja a que mais de perto diz a nós, psicanalistas. A importância do encontro com o outro, a ética desta relação e os aspectos intersubjetivos que a envolvem. Esta, acredito, é a nossa crença maior: o diálogo psicanalítico. Outro fascinante diálogo é o que Umberto Eco estabelece no livro Não contem com o fim do livro (Editora Record) com Jean-Claude Carrière, escritor, roteirista de cinema que trabalhou com grandes diretores como Bunuel, bibliófilo e leitor apaixonado. Diferente do diálogo com Martino, Eco tem em Carrière a proximidade (ou crenças próximas) de uma conversa entre pares. Engana-se quem imagina que este tipo de conversa flui com mais facilidade. Psicanalistas conhecem isso muito bem. Há um livro Diálogos entre Jorge Luis Borges e Ernesto Sábato em que os dois - escritores consagrados, ícones das letras argentinas e latino-americanas - transmitem a sensação de algo empacado e pouco interessante. Cada um se mostra envolto no proprio narcisismo, ou nos próprios temores e ressentimentos com o seu par. Não é o que ocorre entre Umberto Eco e Jean-Claude Carrière. Ambos mostram apreciar o seu interlocutor e até se colocam em uma saudável competição sobre quem mais conhece os campos comuns e quem os vive com mais intensidade. Não falam somente da perenidade dos livros que menciona o título. Discutem sobre memória, o que guardar de tudo que se lê, e a relação disto com os terabites de informações contidos na internet. Conversam sobre obras predestinadas a sobreviver através dos tempos e sobre a fascinação de ambos pela estupidez humana que é capaz de produzir elaborações teóricas convincentes (claro que a quem está disposto a ser convencido) sobre qualquer tipo de preconceito ou de ideologia totalitária. Tudo isto em uma prosa culta, elegante e profunda sem deixar de ser coloquial em nenhum momento. Entre tantos trechos a destacar escolho uma lembrança infantil de Eco. Um vizinho costumava presenteá-lo com um livro no Natal. Este viznho, ao vê-lo entretido na leitura pergunta a "Umbertino" se ele lia para saber o que acontecia no livro ou pelo prazer da leitura. Surpreso, "Umbertino" admite que naquele momento não estava preocupado com o que estava lendo, mas estava satisfeito por estar lendo. Talvez seja a essência dos bons diálogos, inclusive os psicanalíticos,o prazer de estar ali, ainda que numa discussão áspera ou "jogando conversa fora". Traduzindo para o campo psicanalítico, o quanto a relação que analista e analisando estabelecem tem um poder transformador que, muitas vezes, influencia mais que o conteúdo do que se conversa. Uma questão para muitos dos nossos diálogos.


Diálogos com Theodore Zeldin Sem a celebridade de Umberto Eco, o historiador de Oxford, Theodor Zeldin adquiriu grande reputação com livros que abordam a ideia de que são as formas de relacionamentos pessoais, e suas variações ao longo dos séculos, que movimentam o mundo e o transformam. Zeldin considera que o estudo das características emocionais de cada época pode levar ao entendimento de dificuldades e impasses atuais. Dois livros de sua autoria são especialmente afins com o tema Diálogos do próximo número da TRIEB que, aliás, traz uma citação dele no editorial. O seu livro mais conhecido é Uma história íntima da humanidade e, também, onde se encontram suas principais ideias. Cada capítulo traz um tema que busca refletir sobre a subjetividade contemporânea a partir de um diálogo com mulheres comuns (nenhuma celebridade). Cada uma delas fala de sua vida pessoal ou profissional. Expressam sonhos, frustrações, conflitos. A partir destes diálogos, Zeldin mostra como anteriormente outros humanos se defrontaram com problemas semelhantes e buscaram soluções em si mesmos ou no grupo de convívio. Questões que se tornaram a marca dos tempos atuais como a relação homem-mulher, as novas configurações familiares e os direitos dos homossexuais aparecem neste livro emblemático de uma época. Diferente de outros pensadores modernos, Zeldin não vê um declínio nas formas de comunicação e no grau de intimidade dos relacionamentos. Entende que estamos sempre em busca de novos contextos que buscam superar formatos que se destinavam a uma estagnação. Não há lugar para uma idealização do passado ou, como ele diz, que a idade dos descobrimentos mal começou e que a curiosidade se expande como nunca. Esta visão mais otimista dá a impressão, muitas vezes, de um livro que resvala a autoajuda. Zeldin logo afasta o perigo com dados históricos e referências fundamentadas, além de uma elaboração complexa ao tema. O título do primeiro capitulo reflete bem o seu enfoque: "Como os seres humanos continuam a perder as esperanças e como novos encontros, e óculos novos, as renovam". Na esteira do sucesso de Uma história íntima da humanidade, Zeldin foi convidado para uma série de seis conferências radiofônicas na BBC de Londres. Daí resultou o livro A conversação (Editora Record) que, além do conteúdo que foi narrado nos programas traz também a reprodução de pinturas de sua autoria. A primeira das conferências traduz já no título a sua concepção evolutiva "Como toda nova era muda o tema das conversas". Estaríamos, segundo ele, em uma nova era de novas conquistas subjetivas que se expressam de forma incisiva nos diálogos da época. Uma questão a pensar sobre as comunicações tecnológicas, questão que foi amplamente discutida por Eco e Carrière e que também está presente na TRIEB Diálogos. Zeldin mostra que quando as mentes se encontram (e dialogam) elas não somente trocam fatos, elas os transformam. Voltando ao início deste artigo, estaríamos mudando para pior, por exemplo, no ódio e agressividade expressos na internet? O que Zeldin afirma é que os conflitos persistem até que os novos tempos se sedimentem sob a forma de novos diálogos que se tornam mais tolerantes com uma mudança que dê conta da ambivalência. Como exemplo, as já mencionadas novas configurações familiares e a homossexualidade mais visível dos dias de hoje. Neste sentido lembramos do paralelo com Totem e Tabu de Freud. Ao sugerir o assassinato do pai da horda primitiva como o mito psicanalítico da criação do homem, Freud mostrou como o diálogo esteve na raiz do humano. Podemos supor que o ciclo recorrente de despotismo paterno - expulsão dos irmãos - assassinato do pai - usurpação do lugar do pai - novo ciclo de despotismo, somente se modificou quando alguém, pressionado pelo sentimento de culpa, disse aos outros membros do grupo que aquilo tinha que acabar, e começaram a conversar e a criar e estabelecer regras de convivência tolerante. Freud também definiu que as formas de pensamento foram se modificando para lidar com essa situação: do mágico para o religioso e daí para o científico. Os resquícios da agressividade da horda primitiva permanecem até hoje e não deixam de nos assombrar. Através do diálogo logramos contê-la e transformar, a duras penas, a energia destrutiva em vida em comum. Espero que este breve texto seja capaz de "expandir a curiosidade" pela chegada da TRIEB Diálogos. Enquanto ela não vem, fica sugestão de mais uma leitura nos números anteriores da TRIEB. Não vai faltar assunto para bons diálogos.