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Através do Corpo

Versatilizar uma palavra sugere compreendê-la em seus vários deslizamentos. “Através” se movimenta assim: construindo sentidos, abrindo perspectivas que habitam determinados conteúdos. Aqui abordamos o corpo para habitá-lo. Percorremos através da pluralidade psicanalítica, leituras: teóricas, clínicas, culturais, apresentando a dinâmica viva das expressões e manifestações corporais ao buscar imprimir movimento nas suas considerações.


Para começar: o corpo não é um suporte neutro, ele veicula sensações, percepções, memórias, experiências iniciais, primárias. Concretudes que possibilitam conhecer a história das sensibilidades incluindo olhares, cheiros, gestos, movimentos, ritmo, cadências, paralisias, tato, toques e retoques: experiências subjetivantes. Invisíveis em seus registros, porém atuantes em sua comunicação.


Pensar, falar, aproximar-se do corpo é deparar-se com uma obra em aberto em fluxo contínuo de experiências físicas que engendram imaginação fazendo prosperar a produção simbólica sempre inconclusa, múltipla, potente, transitória, portanto, fonte de origem e percurso que impulsiona o viver. No plano da memória a participação do corpo é genuína, imprimindo emoção, intensidade, inquietação quando acionada no lugar das palavras. É com o corpo que também lembramos, ou fazemos lembrar. Lugar inicial do encontro humano, a linguagem corporal instaura o ser no mundo. Esta presença, plena de intimidades, metamorfoses e diversidades revela formas de sentir e expressar que se configuram como revelação da escrita de si e do tempo. Nesse contexto, o corpo se configura como entidade que se movimenta espelhando a passagem do tempo e seus enigmas. O tempo ignora que passa, mas o corpo se recusa a retalhar o tempo, assim, nessa superfície e impondo seus conteúdos, o corpo transforma-se com suas marcas e sinais, tentando afirmar sua destinação: a finitude e seus mistérios conferindo legitimidade à incontornável singularidade humana.


Deslizando, através de outros mundos vivos em seu desaparecimento, nos deparamos com a obra de Lewis Carrol que nos apresenta como inspiração: espelhos. Dispositivos que percorrem e refletem o paradoxo da existência: dispositivos através dos quais o direito se torna canhoto, o negativo vira positivo, o senso comum fica sem sentido, o absurdo, viável.

Aqui, nesse jogo, o fim da experiência humana marcada no desaparecimento do corpo faz parte da invenção da vida.


Esta perspectiva nos incita a ousar e inovar performances, vivências, gestos, estudos, ideias e pensamentos que apontem novas e alargadas compreensões acerca do corpo e da existência.

Movendo-se nesse percurso dentro de um estilo crítico e criativo, a psicanálise oferece um modelo que confere legitimidade à arte de cuidar, libertando o humano das suas concretudes, das suas ideologias, de suas servidões, através... dos afetos que podem tocar os corpos desconstruindo moldes e sujeições abrindo caminho para novas corporeidades ampliando formas de ser e estar no mundo.