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BioArte Coelho Verde

Coelho verde? Como assim? Lá está ele, estampado na capa da Calibán, revista oficial da FEPAL. De imediato lembro-me ser este um dos propósitos da revista: buscar o fértil diálogo da psicanálise com as artes. Portanto, não se trata de qualquer e banal objeto, o “estranho” é uma obra de arte reconhecida, de Eduardo Kac. O autor é poeta e criador do conceito da bioarte. No simpósio de lançamento da revista, na mesa sobre os paradoxos e ambiguidades, o tema já enunciava os limites (e necessidades) de diálogo. A exposição de Kac radicaliza a questão e me vejo exposta a uma condição de ignorante, com pensamentos fragmentados. Na parte oculta passo a ter que dar conta das imagens e associações que tomam minha mente nos dias seguintes. Tudo o que vira e ouvira naquela tarde se enlaçava à noção dos limites da existência, da vida e da morte, do humano e sua relação com a máquina e, sobretudo, acerca dos limites da psicanálise como ferramenta para lidar com as subjetividades contemporâneas. Passo a buscar uma fenda para me mover e sair daquele estado quase puramente sensorial para poder pensar. A obra de Kac me convoca a uma posição de trânsito em que o mundo se apresenta como área intermediária entre a desilusão e a ilusão e como estímulo de referência provocadora para o pensar. Kac me impulsiona a este caminho ao usar tecnologia revelando a complexidade de questões como clonagem, doação de órgãos, manipulação genética, utilização de próteses e incorporação de dispositivos eletrônicos sofisticados em nossos corpos, de interferência tecnológica na natureza etc. Nesse intenso movimento de investigação, sem me saber, jogo e construo para ter o sentimento de possuir, de me sentir potente, de me sentir capaz de fazer algo com minhas impressões e pensamentos e produzir alguma narrativa. Busco pensar para ter alguma tranquilidade. Sigo as mesmas regras de qualquer outra análise, formulando hipóteses plausíveis e testando-as para verificar se são coerentes. Como psicanalista me deixo concentrar sobre a dimensão inconsciente do objeto e na concepção que os objetos de satisfação das pulsões só existem na e pela cultura. Nesse devaneio inicial, um pensamento já me atravessa: em que limites teria que transitar para não fazer da psicanálise mais um instrumento reducionista? Seria essa tentativa de aproximação já ela a expressão antropocêntrica que Kac denunciou? Seria expressão de nossa arrogância que nos fascina de tudo explicar ou teríamos na psicanálise um potente referencial de pensamento que poderia efetivamente somar? Seria possível fazer da potência daquela obra uma experiência compartilhada para um pensamento psicanalítico fora da clínica? Retomo meu caminho em direção ao coelho verde, até porque a alternativa de paralisação não me agrada, mas continuo com o limão em busca de limonada. Aquieto-me agora, ao menos o coelho tem nome: Alba. Ela é fruto de uma manipulação genética que a fez nascer capaz de reluzir em tom verde quando exposta à luz. Sua existência provoca questões éticas e filosóficas importantes. Kac, ao se utilizar de uma experimentação tecnológica, cria sua obra na direção crítica de conceitos assentados da relação do homem com a cultura; da relação do homem com a natureza através da análise hierárquica em que nós humanos nos colocamos diante dos outros animais; faz-nos refletir sobre a relação entre sociedade e os avanços tecnológicos, em particular sobre a escalada sofisticada da manipulação genética; provoca-nos em relação às noções do aparente e do profundo, do falso e do verdadeiro, sobre a relação da máquina com o sujeito, da inter-relação da subjetividade com a tecnologia. Dito de outra forma, a obra de Kac nos coloca de frente aos limites da racionalidade imposta pelo referencial da modernidade e nos convoca a pensar a dicotomia e separação radical entre natureza e cultura, sujeito e objeto, corpo e mente (subjetividade) É certo que com a modernidade ganhamos um vasto conhecimento científico. No entanto, apesar dos ganhos, tal projeto não se mostrou capaz de responder, com seu racionalismo, muitas questões humanas e nossa relação com a natureza. Também não forneceu condições de melhoria de vida material para a maioria da população mundial, o que acarretou a formação de enormes bolsões de famintos e de desabrigados. Tampouco atingimos planos mais aceitáveis de relação com nossos semelhantes (estampados no racismo, na saga dos refugiados, no apartheid social de nossas favelas, no desmatamento desenfreado, nas interferências sem controle dos rios e do solo etc). Vivemos momentos difíceis de grande intolerância, violência e arrogância em nossas vidas pessoais e no espaço social, decorrentes do privilégio do racionalismo como mediador de todo conhecimento e do acelerado avanço técnico-científico muitas vezes atrelado à ganância material. Possuímos tecnologia científica que nos permite amplo espectro de atuação: de salvar vidas seriamente comprometidas a transplantar órgãos, de fertilização assistida a cirurgias intrauterinas, de clonagem a manipulação genética etc. A questão que se coloca na atualidade não é mais até onde podemos ir, mas até onde vale a pena ir. Temos que decidir o que deve ser priorizado, o que está a favor da evolução do ser humano e de sua felicidade. Temos que resistir. Isso exige de nós constante reflexão ética e nós, psicanalistas, devemos sempre rever nossa prática e discutir até que ponto nossas teses e atuações se encontram comprometidas com a singularidade do ser humano. Contemporaneamente buscamos ultrapassar categorias dicotômicas, mas estamos tão somente engatinhando nesse sentido. Mas a arte se antecipa e nos encoraja forçando novos caminhos. Estamos no início da experiência dialógica que possa borrar as fronteiras binárias em busca de algum equilíbrio para a existência humana e do planeta. A existência da coelha Alba nos convoca a pensar acerca das circunstâncias em que novas formas de subjetivação são construídas. Convida a psicanálise a se pensar no referencial da complexidade, ultrapassando os limites organizados em torno das escolas criando uma tessitura instável com diversos agentes interagindo em limites difusos e de forma não linear. Estimula-nos a pensar nos caminhos de formação de psicanalistas capazes de manter o frescor investigativo iniciado por Freud para responder às exigências contemporâneas. De início, a coelha verde me colocou em estado de perplexidade, mas me fez pensar que, no caso de termos a humildade com o conhecimento psicanalítico, talvez possamos caminhar aliados às artes na construção de possibilidades de abordar novas formas de subjetivação e de adoecimento. Talvez possamos somar na criação de dispositivos de ações de resistência e de transformação e, desta forma, colocar a psicanálise de braços dados com outras áreas do saber para pensar questões próprias da responsabilidade moral e ética da ciência. Alba nos instiga a tirar o melhor proveito de todos os coelhos independentemente de sua cor, ou melhor, exatamente por sua diversidade.


Rio, 25 de outubro de 2015


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