Saiba Mais

Outubro Rosa

Há cerca de vinte anos atrás foi criado nos EUA o evento "Outubro Rosa", que, ao iluminar monumentos importantes e aparecer em eventos, como exposições fotográficas e corridas de rua, chamou à atenção para o câncer de mama, segunda causa de morte entre as mulheres, e que tem como prevenção a detecção precoce. De início tímida, a campanha vem ganhando força e importância, tingindo de rosa os lugares e as mentalidades por onde passa. Como toda doença que ainda não é inteiramente conhecida pela ciência, o imaginário relativo ao câncer é povoado por toda a sorte de fantasias e metáforas, como nos fala Susan Sontag, ela mesma paciente de câncer de mama nos anos 70, em seu belíssimo ensaio: Doença como metáfora. O estigma ainda é grande, e muitas vezes nós, da área psi, contribuímos para isso criando uma excessiva psicologização dos adoecimentos. Esta acontece, ou pode acontecer, com qualquer um de nós, como diz Dráuzio Varella: Por mais que nos custe admitir, sabemos que o vigor físico é uma dádiva aleatória atribuída pela natureza, confiscável sem aviso prévio. Ou ainda a sabedoria popular: para morrer basta estar vivo. Mas esquecemos. O ambiente melhorou muito nos últimos anos, as pessoas públicas que tornaram conhecidas as suas histórias, como Patrícia Pillar aqui no Brasil e Angelina Jolie nos EUA, contribuíram para que percebêssemos que, sim, o câncer de mama também atinge mulheres bonitas, bem sucedidas e famosas. Os exames preventivos, mamografia e ultrassonografia, a história pessoal e familiar bem feitas pelo médico, são os recursos que dispomos para fazer frente a esta doença que, segundo dados do INCA, vem aumentando sua incidência no Brasil só perdendo para as cardiovasculares como causa de morte entre as mulheres. Há um enorme trabalho que nós, psicanalistas, podemos realizar neste campo. Primeiro no atendimento a pacientes e suas famílias, no acolhimento da tristeza e muitas vezes até mesmo da depressão, validando esse sentimento como legítimo mas passível de modificação. O trabalho de elaboração das fantasias, sempre singulares, em relação à doença e que frequentemente acabam por desvelar outras questões como pendências afetivas, profissionais e familiares é outra vertente fundamental. Podemos ajudar muito na mobilização de forças psíquicas possíveis para o enfrentamento dos tratamentos, que, com alguma frequência, envolvem sofrimento e perdas, mas que vem alcançando índices cada vez mais animadores de resposta. Outra frente de trabalho é o incentivo à criação de grupos de pacientes e expacientes, de ONG's de apoio à pacientes menos favorecidas com o empréstimo de perucas. Laços - como a fita da campanha - que se criam e fortalecem a todos, participantes e coordenadores, por dar voz ao universo feminino, ainda muito longe de ocupar o espaço que precisa e merece, apesar de todos os avanços das últimas décadas. Outubro rosa: cor ligada ao feminino, à flor, à leveza, algo infantil, ingênua, talvez. Para não assustar? Para tingir de rosa nossos medos mais sombrios? Quem sabe... O importante é que, suavemente, vem ganhando força, fazendo-se presente no calendário das grandes cidades, marcando espaço, chamando a atenção.