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Quem vem lá?

“Que horas ela volta?” da diretora Anna Muylaert, faz rir o público dos cinemas da Zona Sul. A primorosa interpretação de Regina Casé no papel de Val, uma empregada doméstica da classe alta de S.Paulo, “praticamente da família”, nos serve para refletir sobre as relações dos “de cima” com os “de baixo” que vivemos no Brasil. A denúncia desta situação é feita pela personagem de Jéssica, filha da empregada, interpretada pela atriz Camila Márdila. Criada longe da casa grande, Jéssica subverte os códigos desde há muito estabelecidos entre os que tem e os que não tem.

De que ri a classe média? Do mal estar de se ver retratada na continuação de nossa mentalidade escravagista? Do medo gerado pela quebra deste padrão?

Das rosas oferecidas pela patroa à chegada da filha da empregada, vão aparecendo os espinhos, tão logo Jéssica muda de lugar. Não ficar no quarto de empregada e ir para o quarto de hóspedes é uma maravilhosa metáfora de como a classe de cima reage com ódio a este “acinte”.

Um outro “acinte” vem ocupando as manchetes da grande mídia e a discussão sobre segurança pública, no Rio: a invasão das praias da Zona Sul pelos “de baixo”. Muitos dos de cima falam em se armar para conter os “bárbaros”. Pacatas senhoras defendem esta posição. A discussão está na boca do povo.

Não sejamos ingênuos. Os arrastões são explosões de violência e, numa sociedade democrática, os direitos de ir e vir em segurança devem ser assegurados pelo Estado. Assegurados para todos: os de cima e os de baixo. Assim, todos os que infringem a lei devem ser punidos.

Para além da questão jurídica- necessária e fundamental- podemos tentar contribuir para a compreensão do que se passa, nesta banalização da violência, usando o conceito cunhado por Hannah Arendt. A banalização para Arendt vem da irreflexão, do não pensar. A moralidade supõe a reflexão. Não se relaciona àquilo que cada um quer para si e sim às formas de agir com o outro. O agir com o outro exige reflexão. Tentemos pensar.

Como psicanalista, sabemos do ódio que desperta aquilo que vem “de baixo”, àquilo que não reconhecemos como igual. Desde, no plano internacional, aos ataques aos refugiados na Europa, passando pelas discriminações mais claras ou veladas, de cor, credo, orientação sexual e tudo o mais que não se encaixe naquilo que se tem como o bom e o belo.

O bom e belo, dentro da tradição filosófica grega, compunham a ética. Mas tal não se dá hoje, na sociedade de imagens em que vivemos. Nela, o espelho da madrasta da Branca de Neve vige: eu sou a mais bela e quem me ameaça deve morrer. A imagem do espelho retrata um ideal de perfeição. Desconhece-se e repudia-se o que foge do ideal narcísico. A lógica é a do Um. Não cabe o outro.

Ora, nossa prática clínica nos ensina que todos portamos aspectos repulsivos em nós. São eles que turvam a nossa almejada perfeição mas também são de seus destinos, do caminho que nossas partes “de baixo” podem tomar, que nossa vida e todas as formas de vida podem se tornar viáveis e enriquecidas. É necessário que tenhamos destrutividade em nós não para destruir o outro mas para destruir o que em nós impede uma maior aceitação de nós mesmos e do outro.

Difícil exercício de reflexão. A ação violenta de extermínio é banal pois não inclui a reflexão.