Em que ponto estão os psicanalistas? Parte II - Branquitude. Ação Afirmativa. Nova Ação Psíquica

Assista na íntegra a apresentação do trabalho e entrevista da presidente da SBPRJ, Lúcia Palazzo, na Tertúlia realizada na Associação Psicanalítica de Córdoba - APC, em 17 de agosto de 2021.



Vídeo de abertura para a entrevista da presidente da SBPRJ, Lúcia Palazzo, na Tertúlia realizada na Associação Psicanalítica de Córdoba - APC, em 17 de agosto de 2021.

Aguarde, em breve, a divulgação da entrevista.


Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro

Belchior


Eu amo a rua. Esse sentimento de natureza toda íntima não vos seria revelado por mim se não julgasse, e razões não tivesse para julgar, que este amor assim absoluto e assim exagerado é partilhado por todos vós. Nós somos irmãos, nós nos sentimos parecidos e iguais; nas cidades, nas aldeias, nos povoados, não porque soframos, com a dor e os desprazeres, a lei e a polícia, mas porque nos une, nivela e agremia o amor da rua. É este mesmo o sentimento imperturbável e indissolúvel, o único que, como a própria vida, resiste às idades e às épocas. Tudo se transforma, tudo varia — o amor, o ódio, o egoísmo. Hoje é mais amargo o riso, mais dolorosa a ironia, Os séculos passam, deslizam, levando as coisas fúteis e os acontecimentos notáveis. Só persiste e fica, legado das gerações cada vez maior, o amor da rua. João do Rio



Inicialmente, gostaria de agradecer o convite para participar deste encontro, Tertúlia, da Associação Psicanalítica de Córdoba – APC, especialmente a Mónica Santolalla, Presidente, Adriana Pontelli, Coordenadora Científica, José Scavuzzo, Coordenador de Comunidade e Cultura e equipe: Marcela Giomi, Veronica Vigliano, Maria Alejandra Giraldez.

A nossa relação afetiva com a APC se iniciou há muitos anos através dos queridos companheiros Mariano Horenstein, Mónica Santolalla e Elizabeth Chapuy, cujo interesse científico se transformou em laços firmes de amizade e admiração pela trajetória que eles traçaram na psicanálise latino-americana. E também com a realização dos três Simpósios Calibán no Rio, em anos consecutivos, que seria impensável sem a participação e o apoio firme dos queridos amigos, Mariano, neste período editor-chefe da Revista Calibán, de Paulo Herkenhoff, ex-diretor cultural do Museu de Arte do Rio - MAR e de Celmy Quillelli Correa, ex-presidente da SBPRJ (in memoriam). A experiência de trabalho em Calibán inspirou a formação de um coletivo, Calibáns em Conexão, com psicanalistas da América Latina, e seus colaboradores, envolvidos com a criação da Revista, publicação oficial da Federação Psicanalítica da América Latina - FEPAL. Neste mesmo grupo, na gestão de María Cristina Fulco, presidente da FEPAL (2018 a 2020), formou-se outro coletivo, Basta Já/Basta Ya, que originou o vídeo Manifesto contra a violência e o racismo estrutural e em defesa da democracia e os direitos humanos, veiculado na divulgação desta Tertúlia.

A ponte APC/SBPRJ gerou frutos, histórias e convoca-nos à reflexão nestes tempos sombrios, mas também de intensas mudanças. A proposta do Encontro é para uma entrevista baseada neste texto, que certamente já estará ultrapassado, posto que “nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia” e, provavelmente, ao vivo, outro texto se escreverá com as vozes presentes e com a ressonância dos dois idiomas, português e espanhol. Ao vivo tudo pode nos surpreender. Pondo-nos frente ao que Freud nos ensinou sobre a verdade do inconsciente, nada do que foi, será, ou o que silenciou poderá retornar de alguma forma, muitas vezes, estranhamente, para o nosso assombro.

Iniciarei por uma experiência vivida, em meados de 2020, com a pandemia do Covid-19 em curso. Eu estava em quarentena trabalhando on-line, sem sair de casa há alguns meses.

Nesta manhã, precisei ir ao dentista, cujo consultório é em Ipanema, e eu resido no final do Leblon, um percurso a pé que dura por volta de 45 minutos. Queria caminhar para respirar ar livre e experimentar a sensação de liberdade. Porém, fiquei muito tensa ao sair à rua e andei muito rápido, sem olhar para nada, sem aproveitar a paisagem da praia ou,

do outro lado, da Lagoa Rodrigo de Freitas. No retorno para casa, a sensação de perigo foi pior ainda porque já estava cansada de tanto evitar as pessoas receosa do contato com o vírus, medo de falarem comigo, medo do ar que respirava, quase uma paranoia incontrolável. Repentinamente, avisto uma mulher de máscara se aproximar e pergunta- me

a hora. Eu respondo e acelero o passo para me distanciar dela e mal olho para o seu rosto. Não adiantou. Ela praticamente colou em mim e acompanhou o meu passo apressado e disse: Estou perdida, andando há não sei por quanto tempo, meu filho morreu. Tomada de surpresa fiquei perplexa, e então, voltei-me para ela e encontrei o seu olhar perdido e sofrido. Desacelerando o andar, perguntei se ela tinha alguém que pudesse chamar, algum familiar. Ela disse que não e continuamos andando mais lentamente, lado a lado, em silêncio. Eu não sabia o que fazer. Caminhamos juntas por um tempo e quando chegamos na esquina, próxima à saída do metrô, ela parou, voltou-se para mim e disse:

Vou virar aqui e pegar o metrô. Muito obrigada por você ter me acompanhado, me ajudou. O seu olhar estava mais sereno e o meu era de agradecimento por aquele momento. Ela foi embora e eu segui em frente, com mais calma, e pude então olhar o mundo a minha volta. Fui invadida por uma vontade de chorar e também de continuar a conversar com ela. Neste caminho de volta, refleti (uma suposição) sobre a forte emoção pela qual fomos tomadas e pela força do inconsciente, neste encontro, quase impossível de transmitir, entre duas pessoas desconhecidas, esvanecendo-se pelas ruas - “O inesperado faça uma surpresa”, diz a canção “Eu a Brisa”, de Johnny Alf.


Ah, se a juventude que essa brisa canta

Ficasse aqui comigo mais um pouco

Eu poderia esquecer a dor

De ser tão só pra ser um sonho

E aí então quem sabe alguém chegasse

Buscando um sonho em forma de desejo

Felicidade então pra nós seria

Fica, oh brisa fica, pois, talvez quem sabe

O inesperado faça uma surpresa

E traga alguém que queira te escutar

E junto a mim, queira ficar

Bem junto a mim, queira ficar


Outros pensamentos me atravessaram, uma vez que essa experiência poética ressaltou vários aspectos importantes, desde o alcance da psicanálise, privilegiando um modelo de aproximação e escuta diferenciado do método científico clássico, até a experiência emocional mais intensa, com a escuta, e a palavra que irrompe do inconsciente. Essa

mulher perdida, na verdade, ajudou-me a sair de um estado narcísico inteiramente retraído e avesso a um outro diferente e percebido como ameaçador. Não sei quem aproveitou mais deste encontro fortuito na rua, se ela ou eu, posto que me auxiliou a mudar de posição interna, mudar de ritmo, abrindo a possibilidade de troca, esse outro tão estranho e tão

familiar, que em processo de luto, talvez, em busca de um sonho em forma de desejo.

A partir daquele instante, passei a observar não só a linda paisagem do Rio, mas também as pessoas que transitavam. Impressionou-me a quantidade de jovens e crianças, famílias pobres, na sua maioria negros, pedindo comida, pedindo qualquer trocado de dinheiro, olhares perdidos pelo desamparo, abandono e pela fome. Pedintes que se aproximavam

cada vez mais e mais, uma quantidade de miseráveis nunca visto nesta área da cidade, tendo em vista que a população mais pobre se concentra nas periferias e regiões distantes da zona sul. A pandemia escancarou a enorme desigualdade social do país, com a fome e a violência em proporções inimagináveis, com as fortes marcas do genocídio da população indígena e do povo da diáspora negra, escancarou o racismo estrutural – marcas que estão visíveis em toda parte, mesmo que não queiramos olhar.

Cercada por essa realidade de horror cheguei em casa quase como fugitiva. Resguardada e ainda sob o impacto da volta às ruas, pensei como poderia trabalhar psicanaliticamente distante do contato com esse universo chocante que me remeteu aos tempos da faculdade, quando fiz estágio em favelas de minha cidade, “Buraco da Lacraia”, “Buraco do Rato”,

próximas ao cemitério do Caju, entre outras. Lembrei do cheiro que me invadia e que me impedia de almoçar ao chegar em casa, das crianças esquálidas, pedindo lanche e para contar histórias. Lembrei-me dos tempos em que viajei pelo Estado para trabalhar em regiões do interior como funcionária pública e que me tocou perceber o quão distantes

estamos da justiça social e da igualdade de oportunidade. Muitas tristezas e muitas alegrias ao longo dos anos.

Este relato não é gratuito, uma vez que nos remete aos temas intrincados branquitude, ação afirmativa, antirracismo e a nova ação psíquica, esta última mencionada no texto freudiano, Introdução ao Narcisismo (1914), quando ele trata da questão da importância do outro no nascimento do eu, na expressão do narcisismo primário, desse lugar de majestade que o bebê ocupa, e da importância da figura materna, ou quem exerça essa função, de reconhecer e dar lugar ao outro como sujeito. A nova ação psíquica,

fundamental na estruturação psíquica, diz respeito ao investimento libidinal materno, um olhar de reconhecimento do filho identificado como outro na sua subjetividade, ou seja, a força do objeto na identificação do sujeito e que poderá determinar o seu destino. Dar lugar de importância ao outro que é determinante na história de vida de cada um de nós.

Nessa linha de pensamento, somando-se os problemas do contexto atual em que, no Brasil, temos uma péssima gestão da pandemia com mais de 500 mil mortes,

prioritariamente corpos negros, indígenas e pobres, vítimas da necropolítica, do racismo e do abismo da desigualdade social. Recorro ao texto freudiano “A Transitoriedade” (1916), escrito no contexto da primeira guerra mundial, à ideia de luto como processo natural e necessário para alcançarmos um pacto civilizatório, processo de luto que precisamos realizar das identificações primárias e de tudo aquilo que abandonamos ou perdemos do mundo infantil. Diz Freud:

Sabemos que o luto, por mais doloroso que seja, acaba naturalmente. Tendo renunciado a tudo que perdeu, ele terá consumido também a si mesmo, e nossa libido estará novamente livre – se ainda somos jovens e vigorosos – para substituir os objetos perdidos por outros novos, possivelmente tão ou mais preciosos que aqueles. Cabe esperar que não seja diferente com as perdas da guerra. Superado o luto, perceberemos que a nossa elevada estima dos bens culturais não sofreu com a descoberta da sua precariedade. Reconstruiremos tudo o que a guerra destruiu, e talvez em terreno mais firme e de modo mais duradouro do que antes.

Para essa empreitada teremos que enfrentar as nossas práticas racistas colonialistas, enraizadas e reproduzidas, e o silenciamento das instituições sobre a ausência de alguns grupos sociais em seus ambientes. Não se trata de assistencialismo e nem de caridade, mas sim de agir a nosso favor. O tempo é agora.

No estudo de Achille Mbembe sobre a necropolítica, o autor se indaga a partir das reflexões de Michel Foucault; “Se consideramos a política uma forma de guerra, devemos perguntar: que lugar é dado à vida, à morte e ao corpo humano (em especial o corpo ferido ou massacrado)? Como eles estão inscritos na ordem do poder?” Entre muitas reflexões conclui que: ...propus a noção de necropolítica e necropoder para dar conta das várias maneiras pelas quais, em nosso mundo contemporâneo, as armas de fogo são dispostas com o objetivo de provocar a destruição máxima de pessoas e criar “mundos de morte”, formas únicas e novas de existência social, nas quais vastas populações são submetidas a condições de vida que lhes confere o estatuto de “mortosvivos”.

Ação afirmativa são políticas públicas com o objetivo de corrigir desigualdades sociais presentes na sociedade e busca oferecer igualdade de oportunidade a todos. No caso do racismo estrutural, é (ou deveria ser) uma demanda das instituições, cuja ação vise o resgate da dívida histórica e diz respeito a nova ação psíquica necessária e fundante de

uma nova ordem, de rompimento com o pacto narcísico hegemônico branco, que faz com que os brancos se unam para manter os seus interesses, inconsciente ou conscientemente.

Pacto mantenedor de uma estrutura segregacionista e excludente contra pessoas sentidas como indesejáveis, seja pela cor da pele ou pela origem econômica, mantendo privilégios e vantagens, mesmo com o sofrimento alheio e com o submetimento dos invisíveis e excluídos socialmente. Precisamos enfrentar a ferida narcísica aberta em relação ao reconhecimento da nossa própria branquitude, lugar de privilégio e poder na estrutura colonialista racista: poder econômico, poder de decisão política e jurídica e poder de produção de subjetividade, classificando na lógica desta estrutura quem é o outro: inimigo ou dejeto.

Maria Aparecida Silva Bento em sua tese de doutorado intitulada de “Pactos Narcísicos no Racismo: Branquitude e poder nas organizações empresariais e no poder público” pontua a convergência de sujeitos brancos em face da defesa de seus privilégios, bem como relata que ao se afirmar em posição de igualdade com os brancos, pessoas negras são tomadas como agressivas, pois o estilo subserviente, embora criticado, ainda é o mais aceito, não sendo entendido como competição ou concorrência ao espaço do branco. Por sua vez elucida que “Branquitude pode ser vista como territorialidade e como lugar de privilégio e poder não compartilhável” (Bento, 2002). Pensando sobre essa suposta agressividade ameaçadora fui lançada à peça teatral A Tempestade, de William Shakespeare, e para Calibán, personagem monstruoso, canibal, cuja representação do indígena (e do negro) latino-americano traduz aquele ser incapaz de falar a língua do colonizador, mas que resiste.

Isto implica em lidar com o “medo branco” de ser descoberto neste lugar de privilégio e poder, lugar de suposta superioridade moral e intelectual, poder ilimitado dentro da ótica racista. Citando Lia Vainer Schucman: “Nesse sentido, a ideia de poder é vista tal qual elaborou Foucault (2001):

‘o poder não se tem, o poder se exerce’. Ao dizermos isso, compreendemos que poder não é algo que os sujeitos têm, mas sim que realizam em atos e materialidades. Manter o poder não é algo de que alguém, ou uma instituição,

tome posse e guarde para si, mas, sim, algo que se exerce repetidamente e continuamente. Dessa forma, cabe perguntar: quais são essas formas de exercer e manter a branquitude nesse lugar simbólico de poder? Como os sujeitos são

diversos, com diferentes posições ideológicas e de identificação com a branquitude, as manifestações e ações diferem, desde atitudes sutis até aquelas abertamente racistas.

Mais adiante, diz: “Sujeitos que dizem não ser protagonistas de atitudes racistas, de certa maneira, são favorecidos pelas atitudes racistas dos outros”. Reconhecer privilégios não significa querer abrir mão desses benefícios e vantagens.

Em face do que expus até aqui, é urgente revisarmos as práticas de funcionamento e ingresso de alunos e candidatos à formação no seio das nossas instituições psicanalíticas, principalmente na América Latina, onde herdamos uma psicanálise eurocêntrica e eugenista, implicando em perda e no branqueamento do pensamento original e criativo que poderíamos receber das culturas nativas de nossos países − culturas indígena e negra.

Por que será que não recebemos indígenas e negros, inclusive oriundos de outros países da nossa região? Portas e mentes cerradas? Será mais fácil sair a campo, trabalhar em comunidades carentes economicamente, do que abrir a porta de nossa casa, hospitaleiramente, para receber, trocar e intercambiar com esse outro estranho e diferente? Penso que sim, temos muita experiência de trabalho comunitário há anos, aparentemente uma saída mais segura para os nossos pilares defensivos. Porém, trata-se de reconhecer a nossa frágil sustentação frente à violência da estrutura racista em que

fomos forjados e que não devemos perpetuar, sob pena de autodestruição. Repetição de um modelo escravagista e da política de morte.

Quando reforçamos a necessidade de ação afirmativa e antirracista estamos nos referindo a urgência das instituições, sejam elas públicas ou privadas, no nosso caso, das instituições psicanalíticas abrirem de fato os seus Institutos de formação para negros e indígenas, reconhecer esses sujeitos no lugar que lhes é devido, e não mais como dejetos ou como um resto que não queremos lidar, mas apenas nos livrar, que só podemos receber, na maior parte das vezes, como serviçais para limpar a sujeira da nossa própria casa, sem qualquer chance de pertencimento ao corpo societário, sob pena de abalar as certezas que mantém até hoje os alicerces racistas.

Esses sujeitos tiveram os seus direitos subtraídos e foram tratados como resto descartável na sociedade escravocrata e de consumo, com a manutenção dos privilégios dos brancos,

com o controle dos mecanismos de acesso ao poder decisório em relação às políticas no âmbito público e privado. O acesso do negro aos lugares de poder depende, ainda hoje, da decisão de brancos, sendo essa talvez a maior evidência da branquitude na sua expressão máxima de poder. Quanto tempo levará para um negro ocupar um cargo de

poder na estrutura organizacional das sociedades de psicanálise? Se nada fizermos, se de nossa parte nenhuma ação for realizada, estaremos reproduzindo o modelo racista estruturalmente perpetuado. Todos têm direito à sua humanidade plena, mas nem todos se comprometem e defendem os direitos humanos.

Na SBPRJ estamos em um ponto de inflexão da maior importância, pois realizamos na primeira Assembleia Geral Extraordinária, em janeiro de 2021, a votação do “Projeto Racial/Social - Acesso ampliado à formação psicanalítica no Instituto de formação para negros, indígenas e refugiados”. Decisões fundamentais sobre a gratuidade da mensalidade, de cursos e de eventos, análise de formação oferecida por membros efetivos com valores firmados pela dupla analítica e dentro das possibilidades financeiras do postulante, entre outros itens de destaque.

Em nossa Sociedade o debate foi inaugurado, em 2010, com mesas e grupos de reflexão. Fizemos uma “Caravana para a África”, em 2011, em parceria com o Ministério da Saúde de Moçambique. Do mesmo modo, criamos recentemente a “Comissão de estudos críticos sobre relações raciais e pensamento afrodiaspórico” – descolonização do pensamento -

sob a coordenação da ex-presidente, Wania Cidade, principal responsável pelas importantes mudanças que hoje realizamos. Essa contribuição teórica fundamental deslocou o eixo central europeu para uma construção mais consistente das nossas bases fincadas na herança e conhecimento dos povos originários. A contribuição de Wania tem a maior relevância e a nossa gratidão, pois é mulher, negra, que chegou à presidência após 60 anos da fundação da nossa Sociedade. Como sempre diz: “uma irmã precisa conhecer a vida de outra irmã”.

Em agosto de 2021, iniciaremos a primeira turma com ingresso de candidatos pretos e bolsistas, e por conta da nossa preocupação em fortalecer a ação afirmativa de recepção dessas pessoas, e também a preocupação com o desenvolvimento do processo de formação e engajamento dos membros da Sociedade, contratamos uma assessoria para implementação e acompanhamento de ações afirmativas e relações raciais. A consultora,

Deborah Medeiros, que ressaltou: “Temos que ser cuidadosos com a categoria bolsista social. Toda instituição tem um limite para oferta de bolsas sociais, e isto tem que estar claro e acertado conforme a estrutura de cada instituição, antes de um processo seletivo. A subcategoria social/pobre é direcionada para todos, negros e brancos, e acaba favorecendo brancos pobres. Isto dificulta o acesso de negros e torna sua ascensão morosa. Replica uma resistência inconsciente da branquitude, e por este motivo deveríamos separar a categoria social desta ação para o acesso de negros e indígenas”.

Este é outro ponto relevante para se levar em conta, tendo em vista que as sociedades de psicanálise possuem em suas estruturas as clínicas Sociais, cujo objetivo é dar oportunidade de análise às pessoas sem acesso econômico. A clínica social, muitas vezes,

é um importante veículo para a formação psicanalítica, entretanto, para uma maioria de pessoas brancas.

Finalizarei com outra história peculiar, sobre o atual Conselho Diretor da SBPRJ, equipe que construiu e abraçou com empenho o nosso projeto antirracista, social e a favor da democracia. Carlos Pires Leal, um dos diretores, relatou o seguinte acontecimento na véspera da nossa posse, em dezembro de 2020.

“Ontem pela manhã, andando de bicicleta nas montanhas que cercam a minha casa, encontrei o jardineiro de uma amiga. Chama-se Delírio. Para aqueles que defendem a necessidade de muros a la Trump entre a realidade e a ficção,

lamento. Mas este é o nome verdadeiro deste simpático senhor. Acresce-se o fato da minha amiga, sua empregadora, ser uma psicanalista. Que privilégio poder dialogar diariamente com o Delírio, tendo um jardim como testemunha! Disse ao

Delírio que iria tomar posse, ontem à noite, em um novo trabalho. Hoje, assim que me viu, ele me perguntou com interesse: e aí doutor, foi possuído? Respondi que sim. Ele ficou preocupado com os riscos de um trabalho que exigiria que eu

fosse ao Rio. Tranquilizei-o dizendo que vários colegas haviam sido possuídos junto comigo e que isso me protegeria. Protegeria a mim e aos meus companheiros. Amanhã não perderei a oportunidade de pedir ao Delírio algumas

dicas sobre como semear e regar o nosso jardim para que ele cresça e floresça como aqueles que, cotidianamente, ele cuida”.

A partir deste episódio, passei a chamar a nossa equipe de Conselho dos Possuídos! Afinal, somos possuídos pelo desejo, possuídos pela confiança de que a psicanálise é a palavra em ação que liberta. Possuídos, seguimos, em luto, lutando por um pacto civilizatório mais justo e urgente.


Lúcia Palazzo

Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro – SBPRJ

<