REVISTA TRIEB, volume 5, nº 1, junho/dezembro 2006
Psicanálise Escrita

EDITORES
Fernando José Barbosa Rocha
Marci Doria Passos
Viviane Frankenthal

ASSISTÊNCIA EDITORIAL
Munira Aiex Proença
Sônia Bromberger

SUMÁRIO

EDITORIAL – Psicanálise escrita: é possível?
PAINEL - A psicanálise além do divã: a cultura psicanalítica em revista
Contaminações fecundas (um modelo para o trabalho psicanalítico) – Lorena
Preta
Resonancia, poesía y trasmisión – Alicia Killner
Por que escrevem os psicanalistas? – Manoel Tosta Berlinck
ESCRITOS SOBRE A ESCRITA
Sete sugestões para quem escreve – Renato Mezan
Recordar, repetir, escrever: escrever é preciso – Aida Ungier
A Escrita psicanalítica – Enaide Bezerra Barros
Conversa fiada, a narrativa clínica em psicanálise – Anna-Maria de Lemos
Bittencourt
Buscando as palavras, reencontrando a psicanálise – Carlos Leal
Escrita psicanalítica: ficção, teoria e/ou evento estético? – Sérgio Belmont
Psicanálise e escrita – Fábio Lacombe
OUTROS ESCRITOS
“O Mesmo e o Outro” – uma visão psicanalítica – Marguerite Labrunie
A Pulsão e as fronteiras da psicanálise – Monah Winograd
CONFERÊNCIA
Dor e sofrimento na contemporaneidade: sobre o sujeito na modernidade e na
pós-modernidade – Joel Birman
EDITORA Imprinta

RESUMOS DOS ARTIGOS

SETE SUGESTÕES PARA QUEM ESCREVE*
SEVEN SUGGESTIONS FOR WRITERS
Autor: Renato Mezan, Psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae,
professor titular da PUC/SP e autor de vários livros, entre os quais Interfaces da Psicanálise e Freud, Pensador da
Cultura (Companhia das Letras).

Resumo
Este artigo aborda alguns problemas enfrentados por todos os que escrevem textos de
Psicanálise, e oferece algumas sugestões para resolver os mais comuns dentre eles, como o
vínculo entre narração e teorização, o público que desejamos atingir, a direção do argumento,
a fundamentação suficiente, a questão dos contextos, e outros. O argumento é ilustrado com
trechos do Homem dos Ratos e com momentos da elaboração de um outro artigo do autor.

Unitermos: argumentação, narrativa e teoria em Psicanálise, contextos, público, Retórica.

Abstract
This paper addresses some problems faced by authors of psychoanalytical texts. It offers some
suggestions concerning the most frequent difficulties we are confronted with: linking
narration and theorization, the public for whom we are writing, how to progress in an
argument, to which extent it is necessary to go backwards into references, related contexts,
etc. The argument is illustrated with quotations from Freud's Rat Man and with a glimpse into
the process of elaboration of another paper by the author.

Uniterms: argumentation, narration and theory in Psychoanalysis, contexts, audience,
Rhetoric.

RECORDAR, REPETIR, ESCREVER: ESCREVER É PRECISO
RECOLLECTION, REPETITION AND WRITING: IT MUST WRITING
Autor: Aida Ungier, Psicanalista. membro efetivo da SBPRJ. Mestre em Teoria Psicanalítica pelo Instituto
de Psicologia da UFRJ.

Resumo
A autora descreve a importância da escrita para psicanálise, propondo que ela seja tomada
como uma elaboração secundária, transformando os afetos que permeiam a experiência vivida
em reflexão sobre o acontecido. Nesse processo o analista não só testa e repensa os conceitos
psicanalítico, bem como é confrontado com o não-dito de seu desejo. A escrita sustenta aquilo
que mantém a psicanálise viva: a transmissão e a análise sem fim.

Unitermos: Escrita, narrativa da clínica, revisão secundária, transmissão, análise sem fim.

Abstract:
The author describes the importance of writing for psychoanalysis, proposing that it should be
understood as a secondary elaboration, changing the affects which permeate the experience
into a reflection about what happened there. In such process, the analyst not only tests and
thinks about the psychoanalytic concepts, but also he/she is confronted with the unspoken of
his/her desire. Writing supports what keeps psychoanalysis alive: transmission and
interminable analysis.

Uniterms: Writing / clinic’s narrative / secondary revision / transmission / interminable
analysis.

 

A ESCRITA PSICANALITICA
PSYCHOANALYTIC WRITING
Autor: Enaide Bezerra Barros, Membro psicanalista da SPID – Sociedade de Psicanálise Iracy Doyle

Resumo
O texto trata da dimensão da perda na escrita psicanalítica. Analisa o processo pelo qual se
atravessa da escrita à publicação. O ato solitário da escrita é transmutado para o domínio
público, onde a publicidade rompe o silêncio, põe sob o domínio público o que pertencia
apenas a um. Tenta elucidar questões como: transmissão, divulgação e difusão da psicanálise.

Unitermos: Psicanálise. Perda. Escrita. Publicação. Transmissão, divulgação e difusão da
psicanálise.

Abstracts
The study deals with the dimension of the loss in the psychoanalytic writing. It analyses the
process from writing to publication. The lonely act of writing is transposed to the public eye,
where exposure breaks the silence and scrutinize what once belonged to only one person. This
study tries to explain matters such as: transmission, divulgation and dissemination of
Psychoanalysis.

Uniterms: Psychoanalysis. Loss. Writing. Publication. Transmission, Divulgation and
Dissemination of psychoanalysis

CONVERSA FIADA
A narrativa clínica em psicanálise
IDLE TALK (Clinical Narrative in Psychoanalysis)
Autor: Anna-Maria de Lemos Bittencourt, Membro efetivo da SBPRJ.

Resumo
O artigo aborda as dificuldades do psicanalista, ao narrar a experiência clínica, de encontrar a
linguagem capaz de urdir os fios antitéticos do sensível e do racional, de transformar em
discurso uma experiência afetiva intensiva. Este processo assemelha-se ao da criação da obra
de arte, não por tratar-se de fenômeno da mesma ordem, mas, por encontrar-se presente, em
ambos, o que se convencionou chamar de experiência estética. O vigor da narrativa clínica vai
depender da vivência emocional encarnada, ancorada num estado de contemplação dos
próprios afetos, que só num segundo momento poderá ser transformada em relato, ainda assim
de caráter fragmentário e ficcional em relação à experiência vivida. A autora propõe ainda
reflexões sobre possíveis relações, dentro da instituição psicanalítica, que podem funcionar
como entraves à produção escrita dos seus membros.

Unitermos: narrativa clínica, relatórios, experiência estética, estado de contemplação,
pensamento estético.

Abstracts
This paper addresses the analyst’s difficulties, when it comes to transmit his clinical
experience, to find the language capable of weaving the antithetical threads of what pertains
to the senses and what is rational, of transforming an intensive affective experience into
discourse. This process resembles that of the creation of a work of art, not because it is of the
same order but because in both we find what came to be called aesthetic experience. The
vigour of the clinical narrative will depend on the embodied emotional experience, anchored
in a state of contemplation of one’s own affects, that only in a second moment will be
transformed in an account which, inescapably, has a fragmentary and fictional character in

relation to the lived experience. The author offers further ideas about possible relationships
inside the psychoanalytical institution that may hinder the written production of its members.

Uniterms: clinical narrative, reports, aesthetic experience, state of contemplation, aesthetic
thought.

BUSCANDO AS PALAVRAS, REENCONTRANDO A PSICANÁLISE
SEARCHING FOR WORDS, REDISCOVERING PSYCHOANALYSIS
Autor: Carlos Pires Leal, Membro Efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro,
Coordenador Científico e de Ensino da Associação Psicanalítica de Nova Friburgo

Resumo
O trabalho analisa a inibição da escrita por parte dos psicanalistas, reflete sobre algumas
hipóteses sobre suas origens e descreve a forma como algumas instituições vêm buscando
caminhos de recuperação do lugar da escrita em seu cotidiano. Conclui defendendo a idéia de
que do resgate do lugar autoral, dependerá a expansão e o enriquecimento criativo da
psicanálise.

Unitermos: Psicanálise e Literatura, Escrita e Psicanálise, Criatividade e Psicanálise,
Instituição e Psicanálise

Abstract
The work analyzes the inhibition of the writing on the part of the psychoanalysts, reflects on
some hypotheses on its origins and describes the form as some institutions come searching
ways to recover the place of writing. It concludes defending the idea that the expansion and
the creative enrichment of the psychoanalysis depends on the rescue of the authorial place.

Uniterms: Psychoanalysis and Literature, Writing and Psychoanalysis, Creativity and
Psychoanalysis, Institution and Psychoanalysis.

ESCRITA PSICANALÍTICA: Ficção, teoria e/ou evento estético?
Pshycoanalytic writing: theory, fiction and/or aesthetic event?
Autor: Sérgio Antônio Belmont, Psicanalista, Membro Efetivo da SBPRJ

Resumo
O autor propõe uma discussão sobre a escrita em psicanálise a partir de três de seus vértices:
a produção de teoria e a discussão de casos clínicos, utilizando para isso textos freudianos e
de outros autores, e na face relativa à aplicação de princípios psicanalíticos na análise e
interpretação de obras de arte referindo-a ao filme ‘As pontes de Madison’. Procura contribuir
com seu texto na busca da resposta à questão: é possível colocar em palavra escrita as
experiências que ocorrem no setting e conceitos teóricos do domínio psicanalítico e trazê-los
ao nível de fatos compartilhados?
Usa alguns conceitos do historiador, crítico literário e professor de literatura Malcolm
Bowie, e também idéias da psicanalista e pintora Gabriela Goldstein, para mapear aqui o
território mais adequado para abrigar eventos que considera como pertencendo
majoritariamente às áreas da transicionalidade e da experiência estética.

Unitermos: teoria, ficção, fenômeno transicional, experiência estética, contemporaneidade.

Abstract
The author proposes a discussion about psychoanalytic writing, from three angles: the
production of theory and the analysis of clinical cases, using for this task texts from Freud and
other post-freudian authors, and from the angle of applied psychoanalysis to art, using the
film ‘The bridges of Madison County’. His goal is to contribute with his reflections to try to
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find an answer to the question: is it possible to put in written words emotional experiences
taking place within the psychoanalytic setting and concepts belonging to the psychoanalytic
domain, rising them to the level of shared facts? Uses some concepts of historician and
literature critic Malcolm Bowie, and also ideas from psychoanalyst and painter Gabriela
Goldstein, trying, in this paper, to map the most adequate space to dwell events that, from his
point of view, are best understood as belonging to the realm of transicional phenomenas and
aesthetic experience.
Uniterms: theory, fiction, transicional phenomenon, aesthetic experience, contemporaneity.

PSICANÁLISE E ESCRITA
PSYCHOANALYSIS AND WRITING
Autor : Fábio Lacombe, Psicanalista , membro da EBEP e professor da Escolade
Comunicação ECO-UFRJ .

Resumo
O texto se propõe a pensar a relação entre a escrita e a palavra falada, a partir da experiência
psicanalítica. Mostra como ambas derivam das inscrições psíquicas, que exercem a necessária
função de controle da energia pulsional, possibilitando a dinâmica representacional do
psiquismo, culminando no registro da consciência através da fala. A escrita surge na história
humana, como um outro nível de controle, agora, da palavra falada, com conseqüências
fundamentais para a constituição da cultura ocidental. O método psicanalítico possibilita
restaurar a importância da oralidade, realizando um percurso regressivo em direção às
inscrições, e colocando o sujeito em contato com o vazio representacional.

Unitermos: psicanálise, escrita, palavra falada, inscrição psíquica, cultura ocidental, método
psicanalítico.

Abstract: The text seeks to think about the relationship between writing and the spoken word,
starting from the psychoanalytic experience. It shows how both derive from psychic
inscriptions that exert the necessary control function of instinctual energy, making possible
the dinamic representation of the psychic, culminating with the registration of consciouness
through speech. Writting appears in human history in another level of control, now, of the
written word, with fundamental consequences for the constitution of western culture. The
psychoanalytic method enables restoring the importance of orality, making a regressive path
in direction of the inscriptions and placing the subject in contact with the representational
void.

Uniterms: Psychoanalysis, writing, written word, psychic inscription, western culture, psychoanalytic method.

O MESMO E O OUTRO” – UMA VISÃO PSICANALÍTICA
THE SELF AND THE OTHER – A PSYCHOANALYTIC APPROACH
Autor: Marguerite Labrunie, Membro efetivo da SBPRJ

Resumo
O tema "O Mesmo e o Outro" é abordado sob três aspectos. O primeiro aspecto
é visto segundo sua ocorrência dentro da teoria psicanalítica. Em seguida o tema é
mostrado na prática analítica com exposição de um material clínico. Na terceira parte, através
de uma análise do mito de Dionísio nas Bacantes de Eurípides, uma tentativa é feita no
sentido de abordar o tema na cultura.

Unitermos: O Mesmo e o Outro - Formação do Eu - Alteridade - A transferência no processo
analítico - o transe e o êxtase como formas regressivas - Produções culturais e formações
inconscientes - O mito de Dionísio nas Bacantes.

Abstract
The essay treats the issue "the Self and the Other" from three points of view. From the first
the issue is analysed in the psychoanalitical theory. In the second standpoint the theme is
shown in the clinical approach. From the third point of view, through the analysis of the myth
of Dionysius in the Bacchants by Euripides, an attempt is made to place the issue in the
culture.

Uniterms: The Self and the Other- Otherness- The transference in the analytical process- The
trance and the ectasy as regressions- Cultural productions and unconscious formations -
Dionysius' myth in the Bacchants.

A PULSÃO E AS FRONTEIRAS DA PSICANÁLISE
THE DRIVE AND THE FRONTIERS OF PSYCHOANALYSIS
Autor: Monah Winograd, Psicanalista, Pesquisadora Associada do departamento de Psicologia da PUC-Rio

Resumo
Este artigo investiga o conceito freudiano de pulsão, apresentando sua montagem básica e
destacando seu caráter fundamental de conceito fronteiriço (Grenzbegriff). Em alemão, Grenz
significa fronteira ou limite. Em termos geográficos, uma fronteira é a parte de um território
que entesta com outro território, uma linha divisória não necessariamente fina. Nos trechos
em que é vigiada e controlada, uma fronteira é uma faixa de terra de largura extensa,
pertencente simultaneamente a ambos os territórios. Sendo um Grenzbegriff, podemos mesmo
dizer que a pulsão é, metapsicologicamente, a própria fronteira entre corpo e alma e,
epistemicamente, como veremos, o próprio limite da metapsicologia, para além do qual é de
outro campo de saber que se trata. Numa outra metáfora, podemos também visualizar a pulsão
como uma membrana que, ao mesmo tempo em que delimita a separação entre duas ou mais
regiões, permite trocas contínuas; trocas que, ao se realizarem, produzem alterações na
própria membrana. Assim, o conceito de pulsão designa explicitamente o ponto de
indiscernibilidade entre corpo e alma; uma força que, sendo corpórea, é também psíquica, se
não em si mesma, pelo menos ao determinar-se como pulsão disso ou daquilo.

Unitermos: pulsão, instinto, membrana

Abstract
This article investigates the freudian concept of Drive, presenting its basic assembly and
detaching its basic character as a bordering concept (Grenzbegriff). In German, Grenz means
frontier, border or limit. In geographic terms, a frontier is the part of a territory that faces with
another, a dividing line not necessarily fine. In the stretches where it is watched and
controlled, a frontier is a land band of extensive, pertaining width simultaneously to both the
territories. Being a Grenzbegriff, we can exactly say that the Drive is, metapsychologically
speaking, the proper border between body and soul and, epistemically, the proper limit of the
metapsychology, for beyond which it is of another field we are talking about. In one or
another metaphor, we can also visualize the drive as a membrane that, at the same time where
it delimits the separation between two or more regions, allows continuous exchanges;
exchanges that produce alterations in the proper membrane. Thus, the drive concept assigns to
the point where body and soul cannot be distiguished; a force that, being corporal, is also
psychic.

Uniterms: drive, instinct, membrane.