A atividade "Cinema & Psicanálise" ocorre na SBPRJ regularmente há 12 anos, geralmente com entrada franca e sempre aberta ao público em geral.
São encontros onde ocorre um debate a partir de um filme exibido como elemento motivador de reflexão. Nem sempre exclusivamente psicanalítica: quando o filme propicia, são convidados palestrantes de outras áreas do saber. Por exemplo: muitos historiadores, professores de literatura, críticos de cinema, filósofos e artistas em geral já participaram destes encontros em clima informal, trocando idéias com o público presente e com psicanalistas da nossa e de outras instituições.
Deste modo mantemos viva uma das propostas de investigação apontadas por Freud quando se utilizava de grandes obras de arte em geral, e mais especialmente de ficções literárias e teatrais, para ampliar a compreensão psicanalítica do ser humano.
Sendo o cinema uma forma de arte tão popular e desenvolvida, este vasto material não deve ser ignorado como forma de manifestação de fantasias que perpassam nossos corações e mentes.
Verifique sempre os meses em que estes encontros ocorrerão.

Psicanálise & Cinema: Sonhos, de Kurosawa
100 anos de Kurosawa, 110 anos da Interpetação dos Sonhos de Freud a partir de SONHOS DE AKIRA KUROSAWA.
Debatedora AIDA UNGIER (psicanalista da SBPRJ). Coordenação LUIZ FERNANDO GALLEGO (SBPRJ/ACCRJ)

ABERTO AO PÚBLICO | ENTRADA FRANCA
Sede SBPRJ Rua David Campista, 80 - Humaitá | Tel. 2537.1333

100 ANOS de AKIRA KUROSAWA e 110 de "A INTERPRETAÇÃO DOS SONHOS", de FREUD.

Mais do que histórias, SONHOS é um desfile de imagens maravilhosas. Dividido em oito capítulos - oito sonhos diferentes do diretor do filme e que dialogam entre si - traz a peculiaridade contemplativa oriental, música característica e figurinos exóticos para o ocidente. Lida com medos e desejos inconscientes e faz um passeio entre pinturas de Van Gogh (interpretado pelo cineasta Martin Scorsese que foi debatido no “Psicanálise & Cinema” de agosto) e pelo recorrente pesadelo japonês com a radiação nuclear. A beleza da natureza e o horror de sua destruição são alguns dos elementos inspiradores que arremessam Kurosawa a níveis de refinada criatividade, enchendo os olhos e arrebatando corações e mentes.

No 1° sonho, "A Raposa", um menino é avisado pela mãe que não deveria ir à floresta quando há chuva e sol, pois é época de acasalamento das raposas, que não gostam de serem observadas. Ele desobedece os conselhos e observa as raposas atrás de uma árvore. [E qualquer semelhança com a vivência de exclusão e curiosidade infantis em relação à vida sexual dos adultos - o conceito de “cena primária” em Psicanálise - não é mera coincidência]. Ao retornar, sua mãe não o deixa entrar e lhe entrega um punhal, dizendo que, como ele havia contrariado a raposa, deveria se matar; mas a mãe lhe sugeriu algo que pode remediar a situação.

Seguem-se: "O Jardim dos Pessegueiros", onde espíritos das árvores cortadas fazem uma dança melancólica; e "A Nevasca", no qual uma tempestade de neve A Nevasca traz uma linda mulher que envolve as pessoas com uma écharpe prata, sendo ela, a morte. No 4° trecho, "O Túnel", um capitão foge de um cão feroz e entra em um túnel, mas na saída se depara com um de seus soldados, morto em combate, mas que não sabe estar morto. No 5° episódio, "Corvos", um jovem pintor, ao observar obras de Van Gogh, penetra nos quadros e encontra o grande artista que lhe indaga por que não está pintando; pinturas de Van Gogh foram recriadas magistralmente neste trecho de enorme beleza plástica. Em "Monte Fuji em Vermelho", o vulcão entra em erupção e ao mesmo tempo há um incêndio em uma usina nuclear por falha humana. "O Demônio Chorão" lamenta ter sido um homem ganancioso que, como muitos, transformou a terra em um lastimável depósito de resíduos venenosos. No último segmento, "Povoado dos Moinhos", um viajante chega a um lugarejo onde não há energia elétrica. Uma procissão pacífica e encantadora, além da conversa com um idoso sobre a importância de se ter uma boa vida, ser puro e ter água limpa encerram esta obra-prima que será comentada pela nossa colega Aida Ungier - que já debateu antes este filme quando a SBPRJ colaborava com atividades deste tipo no SESC.

Por que “SONHOS”?
Com data de 1900, portanto, de 110 anos atrás, o mundo teve acesso a um marco fundamental da história e do pensamento psicanalítico: “A INTERPETAÇÃO DOS SONHOS”, de Sigmund Freud. Também este ano, se estivesse vivo, o grande cineasta AKIRA KUROSAWA (falecido em 1998) estaria completando 100 anos. Não poderíamos deixar de homenageá-lo, tal como fizemos na época das mortes de Bergman e de Antonioni, já que foi com seu filme "Rashomon” que, pela primeira vez, a SBPRJ debateu Psicanálise & Cinema.

Vencedor de um Oscar® honorário pelo conjunto da obra, Kurosawa foi influência assumida por diretores de sucesso em Hollywood, tendo inspirado o roteiro de “Guerra nas Estrelas”. Sendo que “Os Sete Samurais” e “Rashomon” foram refilmados como westerns (“Sete Homens e um Destino” e “Quatro Confissões”), estando em realização uma nova versão de “Céu e Inferno” (1963). Foi endeusado por Spielberg, Martin Scorsese e Coppola que, com George Lucas, financiaram seus últimos filmes, já que a decadência do cinema japonês quase encerrou sua carreira de 25 títulos entre 1941 e 1965, mas de apenas mais 7 filmes entre 1970 e 1993 - que só se efetivaram com ajuda financeira soviética (“Dersu Uzala”), francesa (“Ran”) e americana (“Kagemusha – A Sombra do Samurai”).

“SONHOS”, de 1990, é desta fase final e é um caso ímpar na história do cinema. Buñuel já havia usado fragmentos de sonhos seus e de Salvador Dali quando realizaram “Um Cão Andaluz” em 1929 e a obra do espanhol está repleta de situações oníricas; mas neste filme Kurosawa encenou sonhos que teve ao longo da vida, da infância à velhice e em sua elaboração cinematográfica confirmou, mais uma vez, que sua vida era pura arte: pintura (foi um grande desenhista), literatura (adaptou de Shakespeare, Gorki e Dostoievski a romances policiais americanos), música, teatro (há influências do teatro Nô e Kabuki em sua magnífica versão para “Macbeth” – “Trono manchado de sangue”) - poucos tinham tanto talento para combinar diferentes formas de expressão artística em Cinema.